CONTÍNUOS
- Feb 3
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POSTAIS
1.
Olhar por perto,
Há coisas escondidas
atrás de outras coisas.
Logo adiante, mais delas.
Depois (dentro) delas, ainda outras.
INTERFERENCIAS
Entre a sombra projetada sobre os desvãos da calçada
[e quem vem do outro
lado da rua, um ônibus.
Um ônibus trazendo setenta e cinco passageiros.
E o pior:
isso ainda não nos leva a nada.
QUATRO CENAS
Um home lendo um livro constitui a primeira cena.
.
Um homem sentado de pijama e chinelos, sob a luz
do abajur, verme se enroscando sobre seus pés:
outra cena.
.
Um homem lendo um livro em chamas, suas mãos
também em chamas.
.
Um homem que ateasse fogo aos próprios olhos.
NOVENTA E NOVE BLEFES (trechos selecionados)
[...]
.
Sobras do lugar onde resíduo.
.
Nu, entre estranhos.
.
Quantos zeros eram?
.
Borboletas & Scanias
.
O coração dispara como um rifle.
.
A morte não vai a lugar algum.
.
Há muito tempo não digo uma palavra. / Há muito tempo
não ando pela rua. / Há muito tempo não sei mais o meu
nome. / Há muito tempo deixei de respirar./ Minha cabeça
agora boia/ numa panela de feijão.
.
Finesse & delitos light.
.
Tudo conta ponto contra.
.
Cuspo duas vezes no chão e já não estou só.
.
Junkies em horário de pico.
.
Milagres sob encomenda.
.
Um lirismo contido. Uma comoção sem concessões. O
princípio da economia. A tragicidade seca e realística. O
cálculo preciso dos efeitosd A superposição planejada de
estilhaços. Poetas de todo o m mundo: puni-vos.
.
Deserto de estimação.
.
Pássaros trincam. Carneiros explodem.
.
Todo mundo atrasado/ pra uma festa que nunca/
vai acontencer.
[...]
Noite ácida. Chuvas a fio.
[...]
HIV FM.
.
Cidades inéditas.
.
Signos em cativeiro.
.
Orla. Casas correndo. Pequenos intervalos entre. Um
susto branco.
[...]
Domingo de sol. Crianças e sorvetes derretendo.
[...]
Aplausos dependurados no teto.
[...]
Coisas que não existem, por exemplo.
.
Endereços. Adereços.
.
Quinta feira, 06/01/2011: hoje o caixa eletrônico me de-
sejou um feliz aniversário.
.
O pensamento cessa. Transfixa uma ideia..
.
Não se cruza duas vezes a mesma porta.
.
Me viu e foi logo dizendo: Sou uma carta não lida, um
bilhete perdido na chuva. Tentei encontrar algo que eu
também pudesse ser. Um símbolo, uma imagem. Nada.
.
E eu, eu sou o demônio. Qualquer dúvida me liga.
COMPOSIÇÃO PARA O AR
O fogo é mais líquido
que o sólido sólido,
no entanto não resiste
ao líquido mais sólido
que o líquido líquido
ar.
EVISERASÇÃO
A cada dia
restar-se.
FRAGMENTOS DE UM SONHO
Noite sem fuga ou segredo. Carros trazendo suspeitos.
Corpos dobrados ao meio. Vespas em meu travesseiro.
SEIS IMPROVISOS
[...]
2.
Esse mundo não é meu.
Esse mundo é dos anjos transformistas,
das crianças selvagens
e dos cachorros mancos.
[...]
5.
Nenhuma rodoviária é feliz.
FRAGMENTOS DE UMA SOMBRA
O ar, turvo, se mistura à pouca luz da sala.
Detrás da cortina ouvir o tráfego na manhã de terça-feira
e assobiar uma valsa como quem enlouquece
numa praia muito limpa, numa rua muito clara.
CONTÍNUO
A casa, então, tornou-se apenas um lugar distante.

Poems by Bruno Brum, book “Mastodondes na Sala de Espera” (Mastodonts in the Waiting Room, free translation). Fragmento de uma sombra (Shadow Fragments), in a Tuesday morning. Listening to the traffic. In a light and clear street. Being home… Stillness.
Going back home. Being there. Doing nothing. The truth of life.
Home, then became a distant place.
I carry on home.




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